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Entrevista
*Ronaldo Duran
O recurso não é lá original. Eu estava desesperado. Tinha que inventar algo. Valia tudo, desde que me aproximasse da Suely. Passei dias tomando coragem, ponderando os pós e contras. “Será que você não está inventando esta entrevista para chamar atenção da minha sobrinha?”, imaginava que seria a primeira pergunta da tia da Suely. No dia que fiz o convite, julguei ver esta interrogação estampada no seu rosto. Como cheguei à tia? Ainda conservo amizade com a prima da Suely. Eu comentei por alto de uma entrevista para a escola. Sorte que eu saí bem do desentendimento a ponto da família da Suely continuar tendo consideração por mim. Mesmo a mãe da Suely me acolheria para responder a entrevista, mas resolvi não arriscar, o clima poderia esquentar. Nosso rompimento está ainda fresco. Que assunto eu inventaria. Surgiu a relação pais e filhos. “A entrevista tem o propósito de comparar os relacionamentos da senhora, quando criança ou adolescente, com seus pais e o seu atual para com seus filhos”, que me lembro foi esta síntese que dei ao casal entrevistado, a saber, a tia e tio da Suely. Digo mais, se não fosse das vezes que a Suely apareceu na sala, ainda que com a tromba, amuada, não querendo sequer me cumprimentar, me fazendo tremer por dentro, confesso que me esqueceria de tudo, na medida em que mergulhava na entrevista. Foi além do que eu imaginava. A espontaneidade dos entrevistados, a desenvoltura, a emoção das lembranças, os relatos de acontecimentos marcantes na vida deles. Que dez! Me senti o tal, o próprio jornalista. Minha professora gostou do material e até me deu uma nota, embora volto a repetir, não fizesse a entrevista parte de atividade requerida. Foi apenas um estratégico meio de eu me aproximar da minha amada Suely. Todo aquele palco montado tinha um único fim, chamar a atenção da Suely. Provar que seus familiares ainda me queriam bem. Que na verdade ela que fora infantil ao manter a atitude de indiferença, só por causa de uma briguinha, a qual ela mesma provocara. Ela que me atirou comida de cachorro primeiro. Ela que me bateu primeiro, com sua mania de dizer que homem nenhum é páreo para ela. Confesso que fui infantil também. Se eu soubesse que daria nisso, eu teria apanhado quietinho, teria lavado minha roupa salpicada de angu de cachorro, do Xuxo. Teria sido seu capacho, simplesmente porque a amo muito, muito, muito.. Pena que não dá para parar o tempo, consertar o copo quebrado, evitando deixar cair no chão... Ela não quer saber de mim. Já tem outro cara... A mim me resta a Timidez do Biquini Cavadão. Ronaldo Duran, romancista, colabora neste jornal toda semana. Blog www.informativoliteraturaviva.blogspot.com Em 02/03/2010 às 11:19:48 - por Redação
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