Cuiabá, Segunda-Feira, 26 de Outubro de 2009
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Inveja?

*Ronaldo Duran
Equipe do departamento reunida. Última reunião do ano. Exibir resultados do ano que finda. Eu registrando Ata. Números, observação. Atividade ingrata: a de registrar reunião.

O clima de festa é regra. Eu a exceção. Estou cansada, esgotada. Depressão pré-férias. Mês que vem embarco nos trinta dias de descanso. Cuidando de mim, do jardim, da louça, da roupa íntima, dando conselhos para a ajudante do lar. Filhos crescidos estão noutra: um com a família, outro fazendo curso no exterior. Eu, sozinha. O ex-marido por vezes aparece para perguntar se sinto falta de algo. Que gentil. Raro ex-marido tão prestativo. O que dói é que ele deixou o barco afundar, e nos separamos.

Carrego pastas, materiais de análise. Retroprojetor, mouse, notebook apostos. Orientei as disposições das cadeiras. Minutos depois, todos enfronhados numa discussão. Aliás, eu todo ouvidos, anotando.

Por que não consegui deixar de mirar a menina? Por que a insistência? Algo nela me perturba. Quando isso acontece em geral nós nem suportamos a voz da pessoa. Mas aconteceu o contrário. Quanto mais ela me inquietava, mais eu me sentia atraída para seu rosto, seu corpo, como uma mosca tonta que segue para a lâmpada acesa que a destruirá.

Ela fala, fala. Um jeito doce, um quê de infantilóide. Tudo indicando idade de 29 anos, e cabeça de 17. Implicância minha, ou surpreendi olhares gulosos dos respeitáveis homens da sala. Queriam-na, desejam-na, mas guardavam a devida aparência. Será que estou vendo coisas? Apesar de homens, eram tão legais comigo e com as colegas de trabalho. Eu nunca presenciei sequer uma cantada. É coisa de cinqüentona despeitada?

Eu sei o tipo de homem que me atrai. Aquele esbelto, educado, charmoso. Por vezes durante um cumprimento de bom dia seguido de beijo e abraço que lhe dou, tenho desejos inenarráveis. Vexo-me em seguida, mas na hora sinto prazer.

O que me dói nela é a juventude, beleza. Acredito ser ela muito desejada, senão por esses homens, que muito bem guardam as conveniências, por muitos na rua, no metrô, no ônibus, na praia, nas festas.

Eu me sinto tão apagada. Rugas que dilaceram minha face. Os olhos que há muito perderam o viço. O biquíni que há duas décadas tenho vergonha de usar. Vejo-me derrotada, em ruínas.
Inveja? Não saberia dizer se sinto inveja dela. Já vivi muito. Se eu quiser, terei um homem. Mas a que preço? O preço da última chance, da falta de alternativa? Estou confusa. Quem sabe o remédio que me falta é me apaixonar, ter um companheiro, sentir-me amada. Porque quando amamos somos jovens, rijos, vivazes, ainda que com cinqüenta anos.

*Ronaldo Duran - Romancista, colabora neste jornal semanalmente.- www.ronaldoduran.com    
Contato: ronaldo@ronaldoduran.com

Em 26/10/2009 às 20:07:14 - por Redação

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